Quem não arrisca não petisca: até quando valerá a pena arriscar?

Na ponte sobre um dos braços do Rio dos Bons Sinais, que liga os bairros de Inhangome a Chuabo Dembe, na cidade de Quelimane, há um aglomerado de pessoas. São homens e mulheres; camponeses, professores e activistas. Eles tencionam atravessar a ponte para desenvolver suas actividades em Inhangome e ou Ilvoa, na outra margem, mas ninguém ousa atravessar.

“Eish, hoje está demais!”, reclamam.

“Como é que os alunos passarão para se fazer à escola, na cidade?” Questionam.

“Segura o braço da sua amiga, vamos”, encorajam-se.

Mas a hesitação prevalece. Risadas surgem, mas mais para substituir o choro de quem não quer enfrentar tanto perigo, mas o deve fazer. Se não o fizer, donde virá o pão?

A causa do pavor é visível. A ponte que liga os dois bairros há muito que se tornou numa armadilha. Sim, uma verdadeira armadilha. É construída de material precário, e nunca conheceu nenhuma obra de reabilitação. Com a subida do nível das águas, parte da ponte fica submersa, sujeitando os utentes da infraestrutura à um jogo de tudo ou nada, ao tentar atravessar.

De repente, num acto de coragem, uma mulher camponesa ousou tocar as tábuas soltas da ponte e testar. Aproximaram-se dela mais duas que a ajudaram a organizar uma madeira solta, para criar um suporte para a travessia daquela parte crítica da ponte.

As mulheres vencem o medo e decidem arriscar. Lá foi uma, depois duas e de seguida já era um “comboio” de mulheres atravessando o perigo de mãos dadas. Uma segurando a mão da outra. Até uma mãe com bebê ao colo arriscou-se.

O sorriso de alívio estampado no rosto da mamã Cecília ao olhar para trás, (a última a atravessar a ponte), era visível. Caso para se dizer que “quem não arrisca, não petisca”.

Mas até quando o povo vai ter de arriscar? Na verdade, este é um risco que pode custar vidas. E vida, temos todos apenas uma. Onde estarão as autoridades? Porquê permitem que o povo faça do risco uma rotina? O que será preciso para que seja resolvido este mal, antes que uma tragédia abale os utentes da ponte?

Inhangome não tem infraestruturas básicas. Para aceder à água potável, aos serviços de saúde, educação, comércio e outros serviços, é incontornável aos moradores de Inhangome o uso da ponte. Para eles, é usar, ou usar a ponte. Até que a morte venha, ou que alguém se compadeça e lhes permita ter um direito que lhes é fundamental: direito à vida, à segurança, e ao bem-estar social, que o Estado lhes deve conceder.

Urge a intervenção de quem de direito na resolução do problema da ponte que separa os bairros de Inhangome e Chuabo Dembe.

 

Por: Natália Alifoi

Assista o drama da travessia sobre a ponte do bairro Inhangome em Quelimane

Cidadãos De Moçambique

Cidadãos de Moçambique

info@cidadaos.org.mz

Somos uma rede de activistas, independentes e apartidários, dedicados a assegurar que os cidadãos tenham o direito a informação e a informar bem como a capacidade de influenciar as decisões políticas, macro e micro, com impacto sobre as suas vidas

Sem comentários

Postar um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

%d bloggers like this: